segunda-feira, janeiro 17, 2005

Mudança de Casota

O URSO POLACO MUDOU DE CASOTA.


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terça-feira, novembro 16, 2004

USA


USA
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De Hiroxima às Twin Towers

“Visto o número de vítimas civis inocentes mortas no Afeganistão a título “colateral" pelos bombardeamentos norte americanos, ser agora igual ao número das que morreram no ataque às Twin Towers, talvez nos seja permitido situar os acontecimentos numa perspectiva mais ampla - mais ampla mas não menos trágica - e pôr uma nova questão: matar deliberadamente será fazer um mal mais grave ou mais repreensível do que matar às cegas e sistematicamente? ( Digo sistematicamente porque os Estados Unidos começaram a pôr de pé esta estratégia armada a partir da Guerra do Golfo.)
Não tenho resposta para a questão que formulo. È possível que no terreno, por entre as bombas em cacho lançadas pelos B-52, ou no fumo sufocante de Church Street, em Manhantan, qualquer comparação ética se torne, a este nível, indecente.


No 11 de Setembro de 2001, quando vi na televisão o que os vídeos transmitiam, isso recordou-me imediatamente o 6 de Agosto de 1945. Com efeito, foi nesse dia à noite que nós europeus, soubemos da notícia do bombardeamento de Hiroxima.

Entre estes dois acontecimentos há óbvias correspondências, nomeadamente uma bola de fogo que cai sem avisar de um céu sem nuvens, tendo ambos os ataques sido projectados de modo a ocorrerem à hora em que os civis das cidades escolhidas vão de manhã para o trabalho, em que as lojas abrem, em que as crianças se encontram na escola preparando as lições. Em ambos há uma idêntica redução a cinzas, corpos lançados pelos ares e transformados em destroços. Uma mesma incredulidade e um mesmo caos provocados por uma nova arma de destruição utilizada pela primeira vez – a bomba A há sessenta anos, um avião de passageiros no Outono passado. No epicentro de ambas as ocorrências, sobre todas as coisas e sobre toda a gente, um espesso sudário de pó.

Obviamente, as diferenças de escala e de contexto são enormes. Em Manhantan o pó não era radioactivo. Em 1945, havia então três anos que os Estados Unidos levavam a cabo uma verdadeira guerra contra o Japão. Mas nem por isso deixa de ser verdade que os dois ataques foram concebidos para servir de aviso.


Perante um e o outro, ficou a saber-se que a partir dali o mundo já não era o mesmo mundo: os riscos que por toda a parte são inerentes à vida sofreram uma metamorfose na aurora de um novo dia que amanhecia sem nuvens.


As bombas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui anunciaram que os Estados Unidos passavam a ser a suprema potência militar do mundo. O ataque do 11 de Setembro anunciou que esta potência já não tem no seu próprio solo uma invulnerabilidade garantida. Estes dois acontecimentos assinalam o início e o fim de um certo período histórico.

Os mais agudos comentários e análises, e também os mais angustiados, da resposta do presidente George W. Bush ao 11 de Setembro – aquilo a que chamou “Guerra contra o Terrorismo”, primeiro crismada “Justiça Infinita” e depois baptizada “Liberdade Imutável” – foram exprimidos e escritos por cidadãos dos Estados Unidos.


A acusação de antiamericanismo feita contra os que se opõem formalmente aos decisores em funções em Washington é de tão curtas vistas como a política que nós pomos em causa. Há incontáveis cidadãos dos Estados Unidos que são antiamericanos e de quem nós somos solidários.

Há também numerosos cidadãos estadunidenses que apoiam a política de Bush, incluindo sessenta intelectuais que recentemente assinaram uma declaração em que procuram definir o que é em geral uma guerra “justa” e por que razão, em particular, se justificam a operação “Liberdade Imutável” no Afeganistão e a guerra contra o terrorismo.


Adiantam estes intelectuais o argumento de que uma guerra é “justa”, ou moralmente justificada, quando o seu objectivo consiste em defender do mal os inocentes. Citam Santo Agostinho. Acrescentando que semelhante guerra, na medida do possível, deverá respeitar a imunidade dos não combatentes.

Se lermos esta declaração com toda a inocência (sabendo, é claro, que ela não foi redigida espontaneamente nem de modo inocente), o texto faz-nos pensar numa reunião de peritos pacientes e eruditos, exprimindo-se com discrição, tendo por sua conta uma vasta biblioteca (talvez até uma piscina entre cada sessão de trabalho) e dispondo do tempo todo para reflectir com calma, para discutir as reservas que uns e outros emitem, chegando por fim a um acordo em que resumem o juízo de todos sobre a questão.


Ressalta também dessa declaração a ideia de uma tal reunião de peritos que terá decorrido algures numa espécie de mítico hotel de Seis Estrelas (com acesso reservado a helicópteros) situado num parque espaçoso mas igualmente cercado de altas muralhas, provido de guardas e com pontos de controlo policiais. Lugar esse onde não pode haver o mínimo contacto entre tais pensadores e a população local, e onde os encontros resultantes do acaso são impossíveis. Resultando pois de semelhantes circunstâncias que aquilo que realmente ocorreu na história e aquilo que hoje se passa para além das paredes do hotel não é tido como um dado legítimo, não sendo, por conseguinte, levado em linha de conta. Trata-se aqui de uma ética para turistas de luxo, protegidos do mundo exterior.

Mas voltemos ao Verão de 1945. Nessa altura haviam já sido destruídas pelo fogo, na sequência de bombardeamentos com napalm, sessenta e seis das maiores cidades japonesas. Em Tóquio um milhão de civis encontrava-se sem tecto e 100 mil pessoas tinham sido mortas. Essas pessoas, para retomarmos a expressão do general-de-divisão Curtis Lemay, responsável dessas operações de bombardeamentos pelo fogo, haviam sido “grelhadas, fervidas e cozidas até à morte”. O filho do presidente Franklin Roosevelt, que era também seu confidente, declarara que os bombardeamentos deviam continuar “até termos destruído mais ou menos metade da população civil japonesa”. A 18 de Julho o imperador do Japão telegrafa ao presidente Truman que entretanto sucedera a Roosevelt, para pedir mais uma vez a paz. A mensagem será ignorada.

Uns dias antes do bombardeamento de Hiroxima, o vice-almirante Radford alardeia a sua bazófia: “O Japão vai acabar por ser uma nação sem cidades – um povo de nómadas”.

A bomba que explodiu por cima de um hospital no centro da cidade matou de uma penada 100 mil pessoas, das quais 95 por cento eram civis. Na sequência da bomba, 100 mil outras irão morrer lentamente dos efeitos da irradiação.

“Há dezasseis horas”, anunciou o presidente Truman, “um avião americano lançou uma bomba sobre Hiroxima, importante base militar japonesa”. Um mês depois, a primeira reportagem não censurada – do corajoso jornalista australiano Wilfred Burchett – descreve os indizíveis sofrimentos que o autor testemunhou ao visitar naquela cidade um hospital improvisado.

O general Groves, então director militar do Projecto Manhanttan, projecto este cuja missão consistia em planificar e produzir a bomba, apressou-se a tranquilizar os membros do Congresso dizendo-lhes que as radiações não provocavam “nenhum sofrimento excessivo” e que “na realidade, segundo nos dizem, constituem uma forma muito agradável de morrer”.


Em 1946, o inquérito sobre os bombardeamentos estratégicos efectuados pelos Estados Unidos conclui que “o Japão ter-se-ia rendido mesmo que as bombas atómicas não tivessem sido lançadas”.

Naturalmente, descrever desta maneira uma tal sequência de acontecimentos é simplificar em exagero. O Projecto Manhanttan foi criado em 1942, na altura em que Hitler triunfava e em que era muito sério o risco de serem investigadores alemães os primeiros a produzir bombas atómicas. Por outro lado, a decisão americana de lançar duas bombas sobre o Japão na altura em que esse risco já não existia tem de ser vista no contexto das atrocidades cometidas pelas forças japonesas através do sudeste asiático e do ataque surpresa a Peal Harbour em Dezembro de 1941. Certos chefes militares americanos e certos cientistas que trabalhavam no Projecto Manhanttan fizeram quanto estava ao seu alcance para dissuadir Truman de tomar uma decisão de tão pesadas consequências ou, pelo menos, para a retardar.

No fim de contas, porém, após tudo ter sido dito e feito, foi impossível celebrar a rendição incondicional do Japão a 14 de Julho – ela aliás não foi sem condições – como uma vitória longamente desejada. No âmago dessa rendição reinavam a angústia e a cegueira.


Esta história tem por fim mostrar a que ponto sessenta pensadores norte-americanos, no seu mítico Hotel de Seis Estrelas, chegam a ser estranhos até à realidade da sua própria história nacional. Tem também por fim lembrar que o período de supremacia militar americana iniciado em 1945 começou, para todos quantos se situam fora da órbita norte-americana, com uma ofuscante demonstração de potência longínqua, impiedosa mas cheia de ignorância. O presidente Bush deveria ter em mente tais factos quando pergunta “Por que razão nos odeiam eles?”. Mas como o poderá fazer? É ele um dos directores do Hotel de Seis Estrelas e nunca de lá sai.”


BERGER, John, “De Hiroxima às Twin Towers”, Le Monde Diplomatique, nº42, 2002.

Votados à ruína

Os empregados por conta de outrem atingem em certos sectores a situação de neo-escravos desse outrem.


Não foi por amor à liberdade que o ser humano acabou com a escravatura: foi por poupança.
Quando manter um cativo se revelou mais dispendioso do que retribuir um contratado, o mundo pulou - e abriu-se à era dos assalariados.
Não foi por amor à liberdade que as ditaduras cederam lugar às democracias: foi por negócio. Ao tornarem-se limitadores da expansão neocapitalista, os regimes totalitários colapsaram em cascata, como se viu (Portugal, Espanha, Grécia, Brasil, Chile, Argentina, Peru, Filipinas, Guiné, Urss, etc.) nos finais do século passado.
Esta visão da história, um pouco cínica, reconheça-se, ganha hoje ressonâncias alertadoras. Estamos, com efeito, a assistir, passada a euforia das referidas mudanças ( que impediu os contentinhos delas de perceberem os logros engendrados), ao emergir de outro ciclo, com dialéticas diferentes mas propósitos afins.
Os empregados por conta de outrem são-no cada vez menos atingindo (já) em certos sectores a situação de neo-escravos desse outrem.

Os regimes democráticos submergem, por sua vez, em ditaduras de minorias crescentes, porque somadas, como as do lucro selvagem, as da produtividade insaciável, as do consumo alienante, as do sucesso anestesiante.
O único poder que neles ainda se sufraga é o político, cada vez mais subjugado, aspirado, no entanto, pelo económico – no qual os cidadãos não metem prego nem estopa, isto é, votos em urnas.
A classe dominante (mais restrita e mais dominante) percebeu que o seu domínio se revela mais bem defendido por comunicadores «glamorosos» do que por polícias agressivos, por televisões de permissividades light do que por censores de pudicia beata, por subculturas padronizadas do que por analfabetismos impostos.
O país foi (foi-se) dividindo em duas «classes»: a dos integrados no sistema (os privilegiados dele) e a dos excluídos (excedentarizados) por ele.

Subtil, um pensamento único (vá lá, dois «pensamentos únicos») cobre tudo e todos – quase tudo e todos. Os cobertos defendem-se dos outros ( com a visão afectada por isso), rotulando-os de «pessimistas» (outrora designavam-nos de subversivos), depreciando-os de incapazes e falhados, insinuando-os de invejosos e venenosos, maneira da sua boa consciência não ficar de pernas para o ar; de pernas para o ar fica a democracia que, se se livrou dos ditadores de outrora, não escapou dos padrinhos da actualidade, totalitários na corrupção, na atracção, na convicção.

Os regimes que proliferam à nossa volta deixaram de assentar em poderes de alternância para assentar «em poderes», dizia Júlio Pinto, «de alterne». A manipulação permitida pelas hipertecnologias ( há televisões que elegem, afirmam, presidentes da República) coloca – como na semana passada muito lucidamente comentava Iva Delgado no programa de Simone na TV-Mulher- o mundo a jeito de ditaduras alcançáveis por voto, por terrorismo, por demagogia, por coacções de imprevisíveis consequências.

O dilatar do neo-esclavagismo (cerca de 900 mil a mais anualmente) que se observa, veja-se a maneira como são tratados os imigrantes, é indiciador disso. «Um ser humano sem personalidade jurídica» é um objecto transaccionável, lembra Luís Salgado Matos. «Reter os seus documentos é uma maneira de o fazer escravo».

As perversões do comunismo observadas na URSS e na China, na Albânia e em Cuba deram álibis irreversíveis para o fim da guerra fria e o início da globalização com que os novos imperialismos aquecem presentemente as liberdades no globo.
Os beneficiados da situação continuam, entretanto, a dançar, sorridentes, entre os seus privilégios de lobby, os seus topos de gama, os seus cartões doirados, os seus yes men, os seus cargos cativos, calcando displicentemente, paternalisticamente ( as «rescisões amigáveis» de empregos que o digam) os desafinadores dos acordes da sua música de falsete: «Money, Money, Money, mon, m…»
Shopenhauer, o maior pessimista da Europa (influenciou entre nós alguns dos melhores de nós como, nos finais do século XIX, os Vencidos da Vida) nunca teve papas na língua no provocar-nos: «A raça humana está de uma vez por todas votada à ruína.»

Dacosta, Fernando, “Votados à ruína”, Visão, 28 de Agosto de 2003, p.114

A sesta

O presidente da República diz, como disse há pouco tempo, que o país está à beira de uma crise sem precedentes? O dr. Santana Lopes disfarça: aplaude o discurso, deixa cair um sorriso e decide ser “positivo”. O país discute a saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI e as pressões do governo sobre a comunicação social? O dr. Santana Lopes desvaloriza: enquanto ele for primeiro ministro, não há “ruído” que desvie o Governo das questões que “verdadeiramente interessam aos portugueses”. A oposição – acompanhada pela generalidade dos economistas – garante que o Orçamento é uma ficção e que os seus objectivos são impossíveis de cumprir? O dr. Santana Lopes não liga: com ele, as pensões sobem, os impostos descem, os salários aumentam e o défice mantém-se miraculosamente abaixo dos 3%. O Expresso refere, numa legenda, que o dr. Santana Lopes fez uma sesta antes de ir para a ModaLisboa? A legenda cai que nem uma bomba junto do primeiro-ministro. A sesta, transforma-se de imediato, num caso nacional com direito a desmentido e honras de comunicado. Evidentemente, o dr. Santana Lopes considera que a sua hipotética sesta é uma das tais questões que “verdadeiramente interessam aos portugueses”.
Assim sendo, e dada a gravidade do caso, o gabinete do primeiro-ministro decidiu emitir um comunicado a desmentir categoricamente a calúnia. Segundo a nota, divulgada através da agência Lusa, o primeiro-ministro não fez nenhuma sesta nesse dia: foi directamente da Assembleia da República e do debate mensal com a oposição para o desfile da ModaLisboa. Ana Costa Almeida, chefe de gabinete do dr. Santana Lopes, é testemunha desse percurso sem mácula: “Acompanhei o senhor primeiro-ministro na sua deslocação à assembleia da república, de onde saiu às 18h30 e não às 17h00 como foi dito e, depois disso, o dr. Santana Lopes não foi fazer qualquer sesta, como é afirmado.” Os portugueses podem, portanto, descansar: o dr. Santana Lopes não fez nenhuma sesta no dia em que foi à ModaLisboa. Como se pode ler no comunicado, a legenda do Expresso é uma calúnia, fruto de uma “linha editorial cada vez mais estranha”, que visa apenas denegrir a imagem do primeiro-ministro.
Dentro desta linha, no entanto, o comunicado podia ter sido um pouco mais explícito. Alertados para a falsa sesta do primeiro-ministro, os portugueses teriam todo o interesse em conhecer os verdadeiros contornos da história. Não chega saber que o primeiro-ministro saiu do parlamento às 18h30. É necessário ir mais longe! É importante perceber se o primeiro-ministro foi directamente do parlamento para a ModaLisboa. Se é verdade que fumou um cigarro a seguir ao debate. Se se confirma que mudou de sapatos. Depois disto, espera-se que o próximo comunicado do gabinete do primeiro-ministro revele, pelo menos, se o dr. Santana Lopes lanchou. O país agradece!


Sá, Constança Cunha e, “A sesta”, Sábado, nº25, 2004, p.62.

O medo vai ter tudo

Há poemas que falam por nós e pelos momentos que vivemos. Alexandre O´Neil escreveu «O Poema pouco original do medo» e não estava a pensar no que os EUA nos reservam para os próximos quatro anos. Mas podia tê-lo feito. O medo, afinal, venceu. Teve tudo, vai ter tudo.


«O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos»



Carvalho, Miguel, VISÃO,http://visaoonline.clix.pt/paginas/conteudo.asp?CdConteudo=36097

quinta-feira, novembro 11, 2004

Bush + 4 anos


Bush + 4 anos
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quarta-feira, outubro 27, 2004

GUERRA?


aristide1
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A fábrica dos desejos

“A actividade publicitária está actualmente tão próxima da perfeição que será difícil trazer-lhe melhorias"
Samuel Johnson, 1759.

Contrariamente às ideias aceites, a publicidade e as suas artimanhas são antigas (1). Desde o século XII, pregoeiros ajuramentados percorriam o interior das cidades divulgando alto e bom som regulamentos ou avisos diversos. No século XVIII, com a invenção da litografia, nasce o cartaz publicitário que cedo cobre paredes e paliçadas. Mas é no século XIX que a máquina levanta voo. A publicidade torna-se um mercado e tenta rapidamente colonizar as páginas dos jornais.
“ Já em 1836, Emile Girardin tem a ideia de lançar o seu jornal diário de grande tiragem La Presse, abrindo-o aos anúncios comerciais. Em 1832, Charles Havas criou a primeira agência de informação internacional, que não tarda em ter também espaços publicitários. Em 1865, os pequenos anúncios representam já um terço do espaço dos jornais (2)”. No virar do século, as grandes firmas saídas da revolução industrial têm necessidade de criar um mercado de massas e cultivar uma procura não organizada. Visto que nada há de “natural” no fenómeno do consumo massificado. Trata-se de uma construção cultural e social.
Já em 1892, por exemplo, a Coca-Cola se dota de um dos principais orçamentos publicitários do mundo. E em 1912, a divisão dos investimentos publicitários da firma é a seguinte: 300 000 dólares de anúncios na imprensa, 1 milhão de calendários, 2 milhões de cinzeiros, 5 milhões de painéis litográficos, 10 milhões de caixas de fósforos com as cores da Coca-Cola (3)... Já nesta época, os dirigentes desta firma concebem a publicidade tendo em consideração o maior número possível de compradores potenciais. “A repetição, declara um deles, pode superar tudo. Uma gota de água acabará por atravessar um rochedo Se vos acertar em cheio e sem parar, o prego cravar-se-á na cabeça (4)”.

Mensagens subliminares

O século XX, com a multiplicação dos media eléctricos (cinema, rádio), electrónicos (televisão) e numéricos (Internet), viu não somente a explosão da publicidade, mas também a sua sofisticação. A ambição de manipular os espíritos, no interior das próprias residências, elevou-se quase ao nível de uma ciência. As técnicas de persuasão não cessaram de se refinar para vencer a barreira da “agitação”, derrubar a nossa desconfiança e vir cravar no nosso espírito uma mensagem muito precisa.
Estima-se actualmente que, nos países desenvolvidos, o metralhar publicitário tem mais de 2 500 impactos por pessoa e por dia. A televisão francesa, juntando todos os canais, difundiu, em 1999, mais de 500 000 anúncios... Nestas condições, uma mensagem publicitária tem forçosamente poucas hipóteses de ser percebida. Um inquérito confirmou que 85% do conjunto das mensagens publicitárias que alcançam um auditório não o atingem. Dos 15% restantes, 5% provocam efeitos contrários (“efeito boomerang”) aos que se procurava obter. E somente 10% agem, em princípio, positivamente. É ainda necessário saber que estes 10% se reduzem, ao fim de 24 horas, por esquecimento, a simplesmente 5%. O desperdício atinge portanto 95% das mensagens publicitárias emitidas!
Como procede então a publicidade para nos atingir? Alguns imaginaram uma mensagem reduzida a uma só imagem cujo efeito seria considerável. Um tal procedimento, chamado de imagem subliminar, torna a publicidade imperceptível. Inserindo uma imagem parasita entre as 24 que desfilam por segundo no cinema (25 na televisão), a persistência retiniana não se produz. O olho vê e o cérebro é informado, mas abaixo do limite da consciência. Por efeito subliminar (do latim sub limen, sob o limite).
Consideradas como ilegais, estas imagens subliminares atormentam o espírito de muitos cidadãos (5). Em França, em 1988, após a vitória eleitoral de François Mitterrand, o jornal Le Quotidien de Paris censurava este candidato por ter beneficiado do efeito oculto de “imagens subliminares” contidas no genérico do jornal televisivo do segundo canal (na altura Antena 2). Foi intentado um processo por “manipulação eleitoral”. Os queixosos perderam o processo. Mas a CNCL, antepassado do actual Conselho Superior do Audiovisual (CSA), decidiu interditar toda a utilização deste tipo de imagens.
Em Maio de 2000, uma associação, nos Estados Unidos, acusou o filme Battlefield Earth, adaptado de um romance de Ron L. Hubbard, fundador da Igreja de Cientologia, e interpretado por John Travolta, de “conter imagens subliminares” para favorecer a conversão do público.
Em Setembro de 2000, no decurso da campanha presidencial, o candidato republicano George W. Bush teve de admitir que um anúncio produzido pela sua equipa continha uma imagem subliminar. Este anúncio referia-se ao programa do seu adversário democrata Al Gore. Em sobre-impressão sobre a imagem deste candidato aparecia primeiro a frase: “The Gore Prescription Plan: Bureaucrats Decide”. Depois sobre um fundo negro, esta frase via as quatro últimas letras da palavra “bureaucrats” separarem-se e virem inscrever-se, uma fracção de segundo, em maiúsculas, “RATS”, sobre todo o ecrã (6). Perseguido pelos media, Bush teve que se resignar a tirar o anúncio da sua campanha.
Na publicidade que se considera uma arte de persuadir, cada mensagem é muito elaborada. Antes da difusão, por exemplo, uma imagem é por vezes submetida ao teste chamado de “eye camera”: regista-se, num espectador-cobaia que olha a imagem, por câmara invisível, o movimento dos olhos, a actividade das pupilas. Multiplicando estes testes, pode-se determinar estatisticamente o percurso do olho; o que é visto em primeiro, o que lhe escapa. Tudo isso procede de um trabalho de pesquisa fruto da colaboração de especialistas pertencentes a diferentes disciplinas: sociólogos, psicólogos, semiólogos, linguistas, gráficos, decoradores.
Uma tal conjugação de peritos fez Marshall McLuhan dizer: “Não existe equipa de sociólogos capaz de rivalizar com as equipas de publicitários na pesquisa e utilização de dados sociais exploráveis. Os publicitários destinam todos os anos milhares de milhões de dólares para a pesquisa e exame das reacções do público e a sua produção é uma extraordinária acumulação de dados sobre a experiência e os sentimentos comuns de toda a sociedade (7)”.
As crianças são um alvo privilegiado. Segundo uma estimativa do Sindicato Nacional da Publicidade Televisiva, os anunciantes despenderam, em França, em 1999, mais de 1 milhar de milhões de francos em anúncios destinados às crianças com menos de 14 anos. O Instituto da Criança estima que cerca de 45% do consumo familiar (cerca de 500 a 600 mil milhões de francos por ano) é mais ou menos directamente influenciado pelos desejos infantis. “A opinião dos de 4 a 10 anos incide sobretudo sobre a alimentação, a confeitaria, o têxtil ou os brinquedos, refere Joel-Yves Le Bigot, presidente deste Instituto, mas eles influenciam também 18% das compras de veículos e 40% da escolha dos locais de férias (8)”.
A publicidade promete sempre a mesma coisa: o bem-estar, o conforto, a eficácia, a felicidade, o sucesso. Faz cintilar uma promessa de satisfação. Vende sonhos, propõe pequenos símbolos para uma rápida ascensão social. Fabrica desejos e apresenta um mundo em férias permanentes, descontraído, sorridente e negligente, povoado de personagens felizes e enfim possuidoras do produto-milagre que as tornará bonitas, prósperas, livres, saudáveis, desejadas, modernas...
A publicidade vende tudo a todos indiscriminadamente, como se a sociedade de massas fosse uma sociedade sem classes. “Face a um mundo angustiante, que a televisão apresenta a todos, afirma o semiólogo Louis Quesnel, a publicidade evoca um mundo ideal, purificado de toda a tragédia, sem países subdesenvolvidos, sem bomba nuclear, sem explosão demográfica, e sem guerras. Um mundo inocente, cheio de sorrisos e luzes, optimista e paradisíaco (9)”.
Por acumulação, os anúncios repetem e tornam plausíveis os grandes mitos do nosso tempo: modernidade, juventude, felicidade, tempo-livre, abundância... A mulher, por exemplo, continua encarcerada numa palavra que, muito frequentemente, apenas a reconhece como um objecto de prazer ou uma personagem doméstica. É perseguida e culpabilizada, tornada responsável pela sujidade da casa ou da roupa, pela deterioração da sua pele e do seu corpo, pela saúde das crianças e asseio dos seus rabinhos, pelo estômago do marido e pelas economias do lar. No escritório ou na cozinha, numa praia ou sob o duche, a sua dependência não varia: continua escrava do olhar do chefe, o homem julgá-la-á faça o que fizer e, mesmo se ela se “liberta” pelo seu trabalho no exterior, ele vigiará o bronzeado da sua pele, o odor das suas axilas, o brilho dos seus cabelos, a frescura do seu hálito, o relevo do seu “soutien” ou a cor dos seus “collants”.

Impotência da liberdade

Antigo activista contra a Guerra do Vietname, William Zimmermann considerava que não era preciso ter vergonha em utilizar a publicidade para se fazer perceber: “Hoje, a classe progressista americana não tem outra escolha: ser destruída pelo sistema ou, o que nós por fim compreendemos, destruí-lo utilizando as suas próprias armas (10)”. Isto não é, bem entendido, assim tão simples. Pois que o princípio da publicidade é o de tudo reciclar. A este respeito viu-se recentemente símbolos como a foice e o martelo (Self-Trade), ou grandes líderes revolucionários como Marx (o banco UFF), Lénine (LibertySurf), Mao (banco UFF), Zapata (LibertySurf) ou Che Guevara (LibertySurf) servirem de actores secundários em anúncios para elogiar a “revolução” Internet...
A este respeito, Frederic Beigbeder observa: “Os ditadores de outrora, temendo a liberdade de expressão, censuravam a contestação, encarceravam os escritores, queimavam os livros controversos. (...) Para reduzir a Humanidade à escravatura, a publicidade escolheu o low-profile, a astúcia, a persuasão. Vivemos no primeiro sistema de domínio humano contra o qual a própria liberdade é impotente. Pelo contrário, o sistema baseia-se na liberdade, esse é o seu maior achado. Qualquer crítica lhe assenta bem, qualquer panfleto reforça a ilusão da sua tolerância . Subjuga-vos igualmente. O sistema atingiu o seu objectivo: mesmo a desobediência se torna uma forma de obediência (11)”.
Estruturalmente redutora, a publicidade oferece uma visão condensada, esquemática e simples da vida. Recruta voluntários estereotipados para nos ditar os nossos desejos. E faz-nos aceitar a nossa própria escravidão.
RAMONET, Ignacio,"A fábrica dos desejos", Le Monde Diplomatique,Maio de 2001.

Manicómio

Tempos do medo. Vive o mundo em estado de terror, e o terror disfarça-se: diz ser obra de Saddam Hussein, um actor já cansado de tanto trabalhar de inimigo, ou de Osama bin Laden, assustador profissional.

Mas o verdadeiro autor do pânico planetário chama-se Mercado. Este senhor não tem nada a ver com o estranho lugar do bairro que nos acode em busca de frutas e verduras. É um todo-poderoso terrorista sem rosto, que está em todas as partes, como Deus, e crê ser, como Deus, eterno. Os seus numerosos intérpretes anunciam: "O mercado está nervoso" e advertem: "Não há de irritar o Mercado".

O seu frondoso portuário criminal fá-lo temível. Passou a vida roubando comida, assassinando empregos, sequestrando países e fabricando guerras.

Para vender as suas guerras, o Mercado semeia medo. E o medo cria clima. A televisão ocupa-se de que as torres de Nova Iorque voltem a cair todos os dias. O que restou do pânico do antrax? Não só uma investigação oficial, que pouco ou nada averiguou sobre aquelas cartas mortais: também restou um espectacular aumento do orçamento militar dos Estados Unidos. E os milhões que esse país destina à indústria da morte não é brincadeira. Apenas um mês e meio desses gastos bastaria para acabar com a miséria no mundo, se não mentem os numerozinhos das Nações Unidas.

Cada vez que o Mercado dá ordem, a luz vermelha de alarme pisca no perigosímetro, a máquina que converte toda a suspeita em evidência. As guerras preventivas matam pelas dúvidas, não pelas provas. Agora é a vez do Iraque. Outra vez esse castigado país foi condenado. Os mortos saberão compreender: O Iraque contém a segunda reserva mundial de petróleo, que é precisamente aquilo de que o Mercado precisa para assegurar combustível ao esbanjamento da sociedade de consumo.

Espelho, espelhinho: quem é o mais temido? As potências imperiais monopolizam, por direito natural, as armas de destruição massiva.

Em tempos da conquista da América, enquanto nascia isso que agora chamam de Mercado global, a varíola e a gripe mataram muitos mais indígenas que a espada e o arcabuz. A bem sucedida invasão europeia teve muito que agradecer às bactérias e os vírus. Séculos depois, esses aliados providenciais converteram-se em armas de guerra, nas mãos das grandes potências. Um punhado de países monopoliza os arsenais biológicos. Há duas décadas, os Estados Unidos permitiram que Saddam Hussein lançasse bombas de epidemias contra os curdos, quando ele era um mimado do Ocidente e os curdos tinham má impressão, mas essas armas bacteriológicas haviam sido feitas com linhagens compradas a uma empresa de Rockville, em Maryland.

Em matéria militar, como todo o demais, o Mercado predica a liberdade, mas não gosta nem um bocadinho da competição. A oferta concentra-se nas mãos de poucos, em nome da segurança universal. Saddam Hussein mete muito medo. Apavora o mundo. Tremenda ameaça: o Iraque podería voltar a usar armas bacteriológicas e, muito mais grave ainda, poderia chegar a ter armas nucleares. A humanidade não pode permitir esse perigo, proclama o perigoso presidente do único país que usou armas nucleares para assassinar população civil. Terá sido o Iraque quem exterminou os velhos, mulheres e crianças de Hiroshima e Nagasaki?

Paisagem do novo milênio:

gente que não sabe se amanhã encontrará o que comer, ou se ficará sem tecto, ou como fará para sobreviver se adoecer ou sofrer um acidente;

gente que não sabe se amanhã perderá o emprego, ou se será obrigada a trabalhar o dobro em troca de metade, ou se a sua reforma será devorada pelos lobos da bolsa ou pelos ratos da inflação;

cidadãos que não sabem se amanhã serão assaltados na esquina, ou se lhes tomarão a casa, ou se algum desesperado lhes meterá uma faca na barriga;

camponeses que não sabem se amanhã terão terra para trabalhar e pescadores que não sabem se encontrarão rios ou mares não envenenados ainda;

pessoas e países que não sabem como terão amanhã dinheiro para pagar as suas dívidas multiplicadas pela usura.

Serão obras da Al Qaeda estes terrores quotidianos?

A economia comete atentados que não vêm nos jornais: cada minuto mata de fome 12 crianças. Na organização terrorista do mundo, que o poder militar custodia, há um bilião de famintos crónicos e seiscentos milhões de gordos.

Moeda forte, vida frágil: o Equador e El Salvador adoptaram o dólar como moeda nacional, mas a população foge. Nunca esses países haviam produzido tanta pobreza e tantos emigrantes. A venda de carne humana ao estrangeiro gera desterro, tristeza e divísas. Os equatorianos obrigados a procurar trabalho noutra parte enviaram para o seu país, no ano de 2001, uma quantidade de dinheiro que supera a soma das exportações de banana, camarão, atum, café e cacau.

Também o Uruguai e a Argentina expulsam os seus filhos mais jovens. Os emigrantes, netos de imigrantes, deixam as suas famílias despedaçadas e memórias que doem. "Doutor, partiram-me a alma': em que hospital se cura isso? Na Argentina, um concurso de televisão oferece, todo dia, o prémio mais cobiçado: um emprego. As filas são imensas. O programa elege os candidatos, e o público vota. Consegue trabalho o que mais lágrimas derrama e mais lágrimas arranca. A Sony Pictures está a vender esta fórmula de sucesso em todo o mundo.

Que emprego? O que vier. Por quanto? Por quanto seja e como seja. O desespero dos que buscam trabalho, e a angústia dos que temem perdê-lo, obrigam a aceitar o inaceitável. Em todo o mundo se impõe "o modelo Wal-Mart". A empresa número um dos Estados Unidos proíbe os sindicatos e estica os horários sem pagar horas extras. O mercado exporta o seu lucrativo exemplo. Quanto mais doridos estão os países, mas fácil se torna converter o direito trabalhista em papel molhado.

E mais fácil se torna, também, sacrificar outros direitos. Os pais do caos vendem a ordem. A pobreza e a desocupação multiplicam a delinquência, que difunde o pânico, e nesse caldo de cultivo floresce o pior. Os militares argentinos, que muito sabem de crimes, estão a ser convidados a combater o crime: que venham salvar-nos da delinquência, clama a gritos Carlos Menem, um funcionário do Mercado que de delinquência sabe muito porque a exerceu como ninguém quando foi presidente.

Custos baixíssimos, ganhos mil, controles zero: um barco petroleiro parte-se pela metade e a mortífera maré negra ataca as costas da Galíza e mais além.

O negócio mais rentável do mundo gera fortunas e desastres "naturais". Os gases venenosos que o petróleo lança ao ar são a causa principal do buraco do ozono, que já tem o tamanho dos Estados Unidos, e da loucura do clima. Na Etiópia e em outros países africanos, a seca está a condenar milhões de pessoas à pior fome dos últimos vinte anos, enquanto que na Alemanha e outros países europeus sofrem inundações que foram a pior catástrofe do último meio século.

Além disso, o petróleo gera guerras. Pobre Iraque.

GALEANO,Eduardo,"Manicómio"Brecha, Montevidéu,2003.

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terça-feira, outubro 26, 2004

"A cabala involuntária"

O caso Rui Gomes da Silva continua a fascinar-nos. Há algo de tão invulgar e surpreendente na personagem que nós não acreditamos que possa ser apenas aquilo que está diante dos nossos olhos. Deverá existir uma armadilha, um alçapão, um truque escondido, que explique aquele comportamento obtuso. Afinal de contas, por muito fortes que sejam os laços de amizade, ninguém chega a ministro com um tal grau de aparente indigência mental. Tem de haver outra coisa.
É óbvio que Gomes da Silva executa uma tarefa de assassino profissional por conta do primeiro-ministro Santana Lopes. O primeiro-ministro abre os braços, num gesto de comovida inocência, e declara: "Eu? De modo algum, não é possível, eu até estava a dormir a sesta..." Entretanto, embuçado na sua personalidade se samurai de serviço, Gomes da Silva executa. É aqui que se coloca a pergunta: executa mal para que não se pense que ele acredita no que está a fazer, ou executa mal porque não é capaz de executar melhor? Como justificar uma "performance" tão canhestra?
O depoimento prestado à Alta-Autoridade por Gomes da Silva foi de tal modo desastroso que tudo parece levar a pensar que ele só pode fazer de propósito. Ninguém é tonto tantas vezes. Há um Guiness para estas coisas. Gomes da Silva acha que é um político (se a política fosse isto, melhor seria o suicídio) respondendo a outro político. Ninguém explicou a Gomes da Silva que, tendo sido bafejado pela sorte de ser membro do Governo, é como membro do Governo que fala, e deste modo compromete todo o Governo. Dar-se-á conta de que andam membros do Governo encostados às paredes para que não os associem a tais alarvices? Um membro do Governo não pode dizer certas coisas sem que isso tenha consequências que, se ele fosse um mero político, não existiriam. Donde, dizer que não há fundamento que legitime a relação entre o que a infeliz personagem disse e a atitude da TVI é totalmente ridículo: nunca uma pressão foi tão descarada. Não pode ser negada porque milhões de portugueses a viram: sequência é consequência.
Que Marcelo dizia "inverdades" (admirável expressão que ainda ninguém distinguiu de "mentiras") e Gomes da Silva explica quais foram: a formação deste Governo foi uma manta de retalhos (até Santana Lopes sabe que foi); "há falta de coordenação" (o que é tão óbvio que levou o primeiro-ministro, num gesto inédito, a dizer que coordenava); que o primeiro-ministro não tem perfil (até Durão Barroso sabe que não); que o Governo foi desastroso no caso da Galp (o que se mete pelos olhos dentro). Se estas são as tais "inverdades", Gomes da Silva está lélé da cuca.
Achando que era pouco, Gomes da Silva foi mais longe e conseguiu enriquecer mais uma vez o léxico português. Já se lhe devia o "contraditório", motivo de gáudio em toda a parte. Temos agora essa espantosa aberração semântica que é "uma cabala involuntária". Alguém teve a caridade de explicar a Gomes da Silva o que significa a palavra "cabala"? Não será melhor arranjarem um assessor de português? Mais um, menos um, não é por aí que desequilibramos as contas do Orçamento Geral do Estado.
COELHO, Eduardo Prado,"A Cabala involuntária", Público,21 de Outubro de 2004

sexta-feira, outubro 22, 2004



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"A Estratégia da Aranha"

O episódio da sesta do primeiro-ministro não é um "fait-divers" ridículo, mas sim um revelador eloquente do estilo de fazer política de Santana Lopes, onde a aparência é tudo e a essência dispensável. Foi assim que ele governou Lisboa, é assim que ele se propõe governar o país. Aparentemente, é apenas ridículo que o gabinete do primeiro-ministro divulgue uma nota oficiosa para desmentir que ele, ao contrário do que noticiou o "Expresso", não fez uma sesta em S. Bento entre o debate parlamentar de quinta-feira passada e a sua presença na Moda Lisboa. Ridículo, porque ninguém, cá fora, pode evidentemente saber se o primeiro-ministro dormiu ou não dormiu uma sesta - o que torna o desmentido totalmente inóquo; ridículo, sobretudo, porque ninguém se interessa com o assunto ou lhe dá o significado e a importância política que o próprio Santana Lopes lhe deu.
E se Santana Lopes deu tanta importância a que o país ficasse a saber que ele não tinha dormido uma sesta é apenas porque não ignora que o país que lê o "Expresso" conhece de há muito a sua fama de trabalhar pouco e preparar mal os assuntos. Sá Carneiro, o primeiro-ministro cuja figura Santana Lopes gosta de invocar a propósito e a despropósito, teve sempre o grande mérito de não ligar à imagem que as pessoas faziam dele, mas sim à avaliação que faziam do seu trabalho: de todos os primeiros-ministros que acompanhei, enquanto jornalista, foi de longe aquele que menos se preocupou em governar com e para os "media" ou para a construção de uma imagem pessoal. O seu autodesignado discípulo é o oposto: a sua obsessão com a imagem e a propaganda está na razão inversa da sua preocupação e da sua competência com a governação. Em Lisboa, deixou a câmara arruinada, sem ter uma única obra que possa dizer sua, mas, em contrapartida, multiplicou por cinco as verbas reservadas a publicidade, gastas em coisas ridículas como aqueles célebres cartazes da série "Já reparou que...?" No Governo do país, prepara-se para avançar com a tal Central de Propaganda, confiada a Morais Sarmento, e cujo custo anunciado é de dois milhões de euros. Entre os assessores de imprensa e de imagem ao serviço da tal central, ao serviço do primeiro-ministro e ao serviço dos vários ministros, é provável que se chegue à centena de pessoas contratadas unicamente para propagandear a acção do Governo - ou seja, para desinformar os cidadãos.
Esta fixação na importância da propaganda e no tratamento da própria imagem - que caracteriza todo o percurso político de Santana Lopes - não implica, necessariamente, que ele seja por igual um inimigo da liberdade de imprensa. Honestamente, não creio que Santana Lopes gostasse de viver num regime como o do seu amigo Jardim, na Madeira, onde as condições de igualdade do debate político e de isenção da imprensa são objectivamente impossíveis. Santana Lopes é, por essência, um orador e um debatente, a quem a ausência de adversário conduz fatalmente à ausência de brilho, por falta de ideias próprias - como bem se viu nos tempos, ainda recentes, em que ele era um comentador solitário da SIC, se sem o tal "contraditório", que agora reclama e que então se esqueceu de reclamar.
Só que uma coisa é estar na oposição, ou mais ou menos na oposição, e outra é estar no poder. E se o poder é perigoso e cega a todos, é especialmente perigoso para pessoas como Santana Lopes, que vivem da construção de uma imagem e de uma ficção. No poder, a sua fatal tendência é deixar de ver a imprensa - que sempre lhe deu asas para voar e para a construção do mito - como o adversário em relação ao qual ele sente a necessidade de ser oposição. Cá fora, a liberdade de imprensa foi-lhe sempre essencial; lá dentro, sente-a como uma ameaça, um adversário a combater. Por necessidade e por vaidade.
Daí até à tentação de acrescentar à propaganda própria o silenciamento das vozes incómodas vai um passo, não tão pequeno quanto ele próprio se dará conta. E vários pequenos passos na direcção do grande passo têm vindo a ser dados por este Governo. São os discursos coincidentes contra os não-alinhados do PSD-Porto, do dr. Jardim e do infeliz e desnudado ministro Rui Gomes da Silva, verdadeira "voz do dono" de todos os tempos e situações; foi o "take-over" sobre a Lusomundo, implicando, de um só golpe, o controlo editorial do "Diário de Notícias", "Jornal de Notícias", "24 Horas", TSF e "Grande Reportagem", entre outros; foi o controlo da Lusa, a única agência de notícias nacional; foi o episódio do afastamento de Marcelo da TVI ("saída", corrigiu a Lusa...); foram as manobras ensaiadas para diversas decapitações de chefias na imprensa, travadas momentaneamente pelo escândalo do caso Marcelo; foram as reveladoras declarações do ministro Morais Sarmento, reclamando o controlo da RTP em nome do "poder que vai a votos".
Tudo coincide e não há que ter ilusões. O processo está em curso, a intimidação e o medo estão instalados e o objectivo claro é garantir a reeleição deste Governo, não pelos seus méritos, mas pela propaganda maciça, e com menos "contraditório" quanto possível dos seus supostos ou reais méritos. É a "italianização" da vida política portuguesa, umas vezes feita subtilmente, outras vezes com a falta de jeito que caracteriza os ministros Gomes da Silva ou Morais Sarmento. A teia vai-se tecendo e não dispensa coisas tão rasteiras como o suborno de jornalistas e de chefias, os "avisos de amigos" ou as soluções finais de silenciamento e afastamento, quando nada mais resulta. Acreditem: sei do que falo, conheço esta gente e os seus métodos, sei o que os move e aquilo de que são capazes.
P.S. - Uma das coisas que caracterizam as pessoas sem coragem é estarem sempre prontas para exigir aos outros o triplo da coragem de que eles não dão mostras. É o caso do lastimável jornalista António Ribeiro Ferreira, do "Diário de Notícias". A propósito da minha situação na TVI (que só a mim me diz respeito), escreveu ele isto: "Miguel Sousa Tavares tem a certeza de que Marcelo Rebelo de Sousa saiu da TVI por pressão do Governo. Mesmo assim continua comentador. Que saudades de Francisco Sousa Tavares."
Passo por cima da clássica tentativa de ofensa familiar, bem característica, por exemplo, dos antigos métodos da Pide, apenas dizendo, sobre isso, que conheci bem o meu pai e sei que, perante as pressões políticas, a sua atitude foi sempre, e seria agora, a de resistir e não a de desistir, baixando os braços e entregando a cena aos Ribeiros Ferreira, sempre prontos a servir. Tal como disse na TVI, não tenho dúvidas - e essa foi uma das razões para continuar - de que muitos como ele, e o próprio Governo, adorariam que também eu me calasse. Mas - coisa que não é muito comum nos tempos que correm - toda a redacção da TVI, o seu director-geral e eu próprio denunciámos no ecrã da própria estação o acto objectivo de saneamento político de Marcelo Rebelo de Sousa e a vontade de resistir e de não entregar de mão beijada ao Governo os célebres "conteúdos", que somos nós próprios. Entendi que a minha obrigação era ser solidário com os que fazem a TVI e não a de fazer a vontade aos que a querem controlar de fora. Infelizmente, não vi nenhum jornalista do "Diário de Notícias", e designadamente António Ribeiro Ferreira, ousar sequer um suspiro público de protesto quando o administrador da empresa proprietária do jornal, Henrique Granadeiro, foi convenientemente substituído pelo mais adequado Luís Delgado. É próprio dos que calam e consentem exigir aos outros tudo aquilo de que não são capazes e nunca ficarem satisfeitos. Como se assim pudessem ser desculpados.
TAVARES, Miguel de Sousa, "A Estratégia da Aranha", Público, 22 de Outubro de 2004

Os Direitos dos trabalhadores: um tema para arqueólogos?

Mais de noventa milhões de clientes vão semanalmente às lojas da Wal-Mart. Os seus mais de novecentos empregados são proibidos de filiar-se em qualquer sindicato. Quando algum deles pensa em sindicalizar-se, passa a ser um desempregado a mais. A bem-sucedida empresa nega sem dissimulação um dos direitos humanos proclamados pela Organização das Nações Unidas: a liberdade de associação. Sam Walton, o fundador da Wal-Mart, recebeu em 1992 a Medalha da Liberdade, uma das mais altas condecorações dos Estados Unidos.
Um em cada quatro adultos norte-americanos, e nove em cada dez crianças, engolem no McDonald’s a comida de plástico que os engorda e torna obesos. Os trabalhadores da McDonald’s são tão desprezados como a comida que servem: cortados pela mesma máquina, eles também não têm direito de sindicalização.
Na Malásia, onde os sindicatos operários ainda existem e actuam, as empresas Intel, Motorola, Texas Instruments e Hewlett Packard conseguiram evitar essa doença. O governo da Malásia declarou "união livre", livre de sindicatos o sector electrónico.
Também não tinham nenhuma possibilidade de sindicalizar-se as mais de cento e noventa operárias que morreram queimadas na Tailândia, em 1993, no barracão trancado por fora onde fabricavam os bonecos da Rua Sésamo, Bart Simpson e os Muppets.
George Bush Jr. e Al Gore coincidiram, durante a campanha eleitoral do ano passado, na necessidade de seguir impondo ao mundo o modelo norte-americano de relações trabalhistas. "Nosso estilo de trabalho", como ambos o chamaram, é o que está marcando os passos da globalização que avança com botas de sete léguas e penetra até nas mais remotas terras do planeta.
A tecnologia que aboliu distâncias, agora permite que um operário da Nike na Indonésia tenha que trabalhar 100 mil anos para ganhar o que ganha, num ano, um executivo da Nike nos Estados Unidos, e que um operário da IBM nas Filipinas fabrique computadores que ele jamais poderá comprar.
É a continuação da época colonial, numa escala jamais conhecida. Os pobres do mundo seguem cumprindo as suas funções tradicionais: proporcionam braços baratos e produtos baratos, ainda que actualmente fabriquem bonecos, ténis, computadores ou instrumentos de alta tecnologia, além de produzir, como antes, arroz, café, açúcar e outras coisas malditas para o mercado mundial.
Desde 1919 foram assinados 183 acordos internacionais que regulam as relações de trabalho em todo o mundo. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), desses 183 acordos, a França ratificou 115, a Noruega 106, a Alemanha 76 e os Estados Unidos...catorze. O país que encabeça o processo de globalização só obedece às suas próprias ordens. Dessa forma, garante suficiente impunidade para as suas grandes corporações lançadas à caça de mão-de-obra barata e à conquista de territórios que as indústrias sujas podem contaminar a seu bel-prazer. Paradoxalmente, esse país que não reconhece outra lei além da lei do trabalho fora da lei, é o que agora diz que não haverá outra saída senão incluir "cláusulas sociais" e de "protecção ambiental" nos acordos de livre comércio. O que seria da realidade sem a publicidade que a mascára?
Essas cláusulas são meros impostos que o vício paga à virtude com o rótulo de relações públicas. Mas a simples menção dos direitos dos trabalhadores arrepiam os cabelos dos mais fervorosos advogados do salário de fome, da carga horária esticada ao máximo e da demissão livre. Desde que Ernesto Zedillo deixou a presidência do México, ele passou a integrar as direções da Union Pacific Corporation e do consórcio Procter & Gamble, que opera em 140 países. Além disso, Zedillo chefia uma comissão das Nações Unidas e difunde os seus pensamentos através da revista Forbes. Em idioma tecnocrático, indigna-se contra a "imposição de acordos colectivos de trabalho nos novos acordos comerciais". Traduzindo: vamos deitar ao lixo toda a legislação internacional que ainda protege os trabalhadores. O presidente aposentado cobra para pregar a escravidão. Porém, o principal executivo da General Motors diz mais claramente: "Para competir é necessário espremer os limões". Os factos são factos.
Diante as denúncias e os protestos, as empresas lavam as mãos: eu não fui. Na indústria pós-moderna, o trabalho já não está concentrado. Os subcontratados fazem 75% das partes dos automóveis da Toyota. De cada cinco operários da Volkswagen no Brasil, só um é empregado da empresa. Dos 81 operários da Petrobras mortos em acidentes de trabalho nos últimos três anos, 66 estavam ao serviço de empresas subcontratadas que não cumprem normas de segurança. Através de 300 empresas subcontratadas a China produz metade de todas as bonecas Barbie para as meninas do mundo. Na China, sim, há sindicatos, mas eles obedecem a um Estado que em nome do socialismo se ocupa da disciplina da mão-de-obra. "Nós combatemos a agitação operária e a instabilidade social para assegurar um clima favorável aos investidores", explicou recentemente Bo Xilai, secretário-geral do Partido Comunista.
O poder económico está mais monopolizado do que nunca, mas os países e as pessoas competem no que podem: vamos ver quem oferece mais em troca de menos; vamos ver quem trabalha o dobro em troca de metade. À beira do caminho estão a ficar os restos das conquistas arrancadas por dois séculos de lutas operárias em todo o mundo.
As plantas «maquilhadoras» do México, América Central e Caribe, que por algum motivo se chamam "sweat shops", crescem a um ritmo muito mais acelerado que a indústria no seu conjunto. Oito em cada dez novos empregos na Argentina estão sem nenhuma protecção legal. Nove em cada dez novos empregos na América Latina correspondem ao "sector informal", um eufemismo para dizer que os trabalhadores estão na mão de Deus. A estabilidade no emprego e os demais direitos dos trabalhadores serão, em breve, um tema para arqueólogos? Nada mais que recordações de uma espécie extinta?
No mundo ao avesso, a liberdade oprime: a liberdade do dinheiro exige trabalhadores presos no cárcere do medo, que é a maior prisão de todas as prisões. O deus-mercado ameaça e castiga, como já sabe qualquer trabalhador, em qualquer lugar. O medo do desemprego que serve para que os patrões reduzam os custos de mão-de-obra e multipliquem a produtividade é hoje em dia a fonte de angústia mais universal. Quem está livre do pânico de ser incluído nas longas filas dos que procuram trabalho? Quem não teme converter-se num "obstáculo interno", para dizer segundo as palavras do presidente da Coca-Cola que, há um ano e meio, explicou a demissão de milhares de trabalhadores dizendo "eliminamos os obstáculos internos"?
A última pergunta: diante da globalização do dinheiro, que divide o mundo entre domadores e domados, será possível internacionalizar a luta pela dignidade do trabalho? Pequeno desafio.
GALEANO, Eduardo, Os direitos dos trabalhadores:um tema para arqueólogos?, La Jornada

Nós Dizemos Não

Em Julho de 1988, em plena ditadura do general Pinochet, 300 intelectuais e artistas participaram no "Chile Cria", um encontro internacional de arte, ciência e cultura pela democracia no Chile. Este é o discurso de inauguração, que Eduardo Galeano pronunciou em nome de todos os convidados.

"Viemos de diversos países, e estamos aqui, reunidos à sombra generosa de Pablo Neruda: estamos aqui para acompanhar o povo do Chile, que diz não. Nós também dizemos não.
Dizemos não ao elogio do dinheiro e da morte. Dizemos não a um sistema que põe preço nas coisas e nas pessoas, onde quem mais tem é quem mais vale; dizemos não a um mundo que destina dois milhões de dólares por minuto para as armas de guerra enquanto mata, por minuto, 30 crianças, de fome ou doença curável. A bomba de neutrões, que salva as coisas e aniquila as pessoas, é um perfeito símbolo do nosso tempo. Para o sistema assassino que converte em objectivos militares as estrelas da noite, o ser humano não é nada mais do que um factor de produção e consumo e objecto de uso; o tempo não é outra coisa para além de um recurso económico; e o planeta inteiro, uma fonte de renda que deve render até a última gota do seu caldo. A pobreza é multiplicada para que a riqueza se possa multiplicar, e multiplicam-se as armas que garantem essa riqueza, riqueza de pouquinhos, e que mantém à margem a pobreza de todos os outros, e também se multiplica, enquanto isso, a solidão: nós dizemos não a um sistema que nega comida e nega amor, que condena muitos à fome de comida e muitos mais à fome de abraços.
Dizemos não à mentira. A cultura dominante, que os grandes meios de comunicação irradiam em escala universal, convida-nos a confundir o mundo com um supermercado ou uma pista de corrida, onde o próximo pode ser uma mercadoria ou um competidor, mas jamais um irmão. Essa cultura mentirosa, que grotescamente especula com o amor humano para lhe arrancar mais-valia, é na realidade a cultura da desvinculação : tem por deuses os ganhadores, os exitosos donos do dinheiro e do poder, e por heróis os "Rambos" fardados que cuidam das suas costas aplicando a Doutrina da Segurança Nacional. Pelo que diz e pelo que cala, a cultura dominante mente que a pobreza dos pobres não é um resultado da riqueza dos ricos, mas que é filha de ninguém, vinda no bojo de uma couve-flor ou da vontade de Deus, que fez os pobres preguiçosos e burros. Da mesma maneira, a humilhação de alguns homens provocada por outros não tem por que motivar a solidária indignação ou o escândalo, porque pertence à ordem natural das coisas: as ditaduras latino-americanas, por exemplo, fazem parte da nossa exuberante natureza e não do sistema imperialista de poder.
O desprezo transforma a história e mutila o mundo. Os poderosos fabricantes de opinião tratam-nos como se não existíssemos, ou como se fôssemos sombras tontas. A herança colonial obriga o chamado Terceiro Mundo, habitado por pessoas de terceira categoria, a aceitar como própria a memória dos seus vencedores, e obriga-o a compor a mentira alheia para a usar como se fosse a própria verdade. Premeiam a nossa obediência, castigam a nossa inteligência e desalentam a nossa energia criadora. Somos opinados, mas não podemos ser opinadores. Temos direito ao eco, não à voz, e os que mandam elogiam o nosso talento de papagaios. Nós dizemos não: nós negamo-nos a aceitar esta mediocridade como destino.
Nós dizemos não ao medo. Não ao medo de dizer, ao medo de fazer, ao medo de ser. O colonialismo visível proíbe dizer, proíbe fazer, proíbe ser. O colonialismo invisível, mais eficaz, convence-nos de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser. O medo disfarça-se de realismo: para que a realidade não seja irreal, dizem os ideólogos da impotência, a moral haverá de ser imoral. Frente à indignidade, frente à miséria, frente à mentira, não temos outro remédio para além da resignação. Marcados pela fatalidade, nascemos preguiçosos, irresponsáveis, violentos, bobos, pitorescos e condenados à tutela militar. No máximo, podemos aspirar a converter-nos em prisioneiros do bom comportamento, capazes de pagar pontualmente os interesses de uma descomunal dívida externa contraída para financiar o luxo que nos humilha e o bastão que nos golpeia.
E neste estado de coisas, nós dizemos não à neutralidade da palavra humana. Dizemos não aos que nos convidam a lavar as mãos perante as quotidianas crucificações que ocorrem ao nosso redor. À aborrecida fascinação de uma arte fria, indiferente, contempladora do espelho, preferimos uma arte quente, que celebra a aventura humana no mundo e nela participa, uma arte irremediavelmente apaixonada e briguenta. Seria bela a beleza, se não fosse justa? Seria justa a justiça, se não fosse bela? Nós dizemos não ao divórcio entre a beleza e a justiça, porque dizemos sim ao seu abraço poderoso e fecundo.
Acontece que nós dizemos não, e dizendo não estamos dizendo sim.
Dizendo não às ditaduras, e não às ditaduras disfarçadas de democracias, nós estamos dizendo sim à luta pela democracia verdadeira, que a ninguém negará o pão e a palavra, e que será bela e perigosa como um poema de Neruda ou uma canção de Violeta Parra.
Dizendo não ao devastador império da cobiça, que tem o seu centro no norte da América, nós estamos dizendo sim a outra América possível, que nascerá da mais antiga das tradições americanas, a tradição comunitária: a tradição comunitária que os índios do Chile defendem desesperadamente, de derrota em derrota, há cinco séculos.
Dizendo não à paz sem dignidade, nós estamos dizendo sim ao sagrado direito de rebelião contra a injustiça e contra a sua longa história, longa como a história da resistência popular no longo mapa do Chile.
Dizendo não à liberdade do dinheiro, nós estamos dizendo sim à liberdade das pessoas: liberdade maltratada e machucada, mil vezes derrubada, como o Chile e, como o Chile, mil vezes erguida.
Dizendo não ao egoísmo suicida dos poderosos, que converteram o mundo num vasto quartel, nós estamos dizendo sim à solidariedade humana, que nos dá sentido universal e confirma a força de fraternidades mais poderosas que todas as fronteiras com todos os seus guardiães: essa força que nos invade, como a música do Chile, e que como o vinho do Chile nos abraça.
E dizendo não ao triste encanto do desencanto, nós estamos dizendo sim à esperança, à esperança faminta e louca e amante e amada, como o Chile: a esperança obstinada como os filhos do Chile rompendo a noite."

GALEANO, Eduardo,Nós Dizemos Não, Editora Revan, Brasil, 1990

quinta-feira, outubro 21, 2004

Central de Comunicação

O novo Gabinete de Informação e Comunicação (GIC) que vai ser criado na Presidência do Conselho de Ministros (PCM) custará, em 2005, cerca de dois milhões de euros. A chamada "central de comunicação" já foi aprovada em Conselho de Ministros, mas só começará a funcionar no final deste ano, início de 2005.
Este gabinete, que deverá ter entre 20 a 30 pessoas, estava a ser pensado pelo ministro da Presidência, Nuno Morais Sarmento, desde o Governo de Durão Barroso. No entanto, o anterior primeiro-ministro tinha algumas dúvidas sobre a utilidade de uma "central de comunicação" e, por isso, optou por adiar sempre uma decisão.
Em pouco tempo, no entanto, Morais Sarmento e o actual primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, conseguiram entender-se. Pelo menos, quanto ao diploma que foi aprovado. A agilidade com que esta questão foi tratada foi vista, no Governo, como uma vontade do primeiro-ministro não querer dar azo a especulações sobre divergências com Sarmento, com quem não tem uma relação de confiança, ao contrário de outros barrosistas. Na Presidência do Conselho de Ministros, é dado como provável o nome de José Augusto Fernandes (ex-jornalista e ex-assessor de Durão em São Bento) para liderar a "central de comunicação", que poderá também recorrer a serviços externos.
Segundo o decreto regulamentar que foi aprovado, o GIC irá "elaborar planos de comunicação relativos às políticas públicas aprovadas e à acção governativa; estabelecer as relações com os meios de comunicação social; apoiar assessorias e outras estruturas de imprensa; planear e apoiar campanhas de informação a promover; organizar e apoiar conferências de imprensa dos membros do Governo, bem como sessões de informação e esclarecimento; elaborar conteúdos internos para plataformas de informação e comunicação governamentais; elaborar relatórios de imprensa; promover a formação profissional na área da informação e comunicação e tratar, arquivar e divulgar a informação produzida pelos órgãos de comunicação social".
PEREIRA, Helena,"Central de Comunicação", Público,19 de Outubro de 2004.
Pois é, nem Goebbels faria melhor!
Este vergonhoso governo que nos (des)governa, prentede controlar toda a informação que por aí circula.
Se me é permitido fazer uma sugestão, digo-lhe que o melhor meio para atingir os fins a que se propõe, será talvez acabar de vez com toda a imprensa livre deste ridículo país e estabelecer a pena de morte para os chamados "delitos de opinião". Desta forma, não só poupariam o dinheiro destes desgraçados contribuintes, mas também se livrariam de vez de todas as vozes incómodas e não alinhadas com a sua magna sapiência. MIL VEZES VERGONHA!!!!!! RUA! Já!
Urso Polaco

Obsessões Perigosas

Em lugar do "governo do povo, pelo povo, para o povo", os que nos governam só concebem "o governo da televisão, pela televisão, para a televisão"
Num dos seus mais brilhantes e memoráveis discursos, Lincoln considerou que a vitória na batalha de Gettisburg na Guerra Civil americana garantia o "renascimento da liberdade; e o governo do povo, pelo povo, para o povo".
Século e meio depois, os anões políticos domésticos não só desconhecem o sentido do conceito de liberdade, como apenas concebem "o governo da televisão, pela televisão, para a televisão". Ou para as rádios. Ou para os jornais. O povo deixou de fazer parte das suas preocupações, apenas lhes interesse o que se mostra ou não ao povo. A política deixou de fazer sentido como serviço público, antes como instrumento de estar ou não "por cima" na comunicação social. Por isso perderam o sentido da proporção, levitam num espaço irreal onde, sem referências, se desdobram em declarações que lembram as baratas encadeadas pela luz forte de um mundo e um povo que não desapareceram e que existem para além dos jornais, das rádios e das televisões.
Os novos dislates que ontem Rui Gomes da Silva somou à sua colecção particular de atoardas poderiam, e talvez até devessem, ser ignorados como se ignora a indigência vestida de soberba. Poderiam - mas não podem porque mostram onde chegou o desnorte que reina entre os colaboradores mais directos de Pedro Santana Lopes.
É certo que a maioria dos políticos olha para a imprensa e os jornalistas apenas como os que trazem e levam recados (e até há quem a isso se preste). Assim como é certo que o amor pela independência de juízo, coerência e sentido crítico dos comentadores varia conforme o "espírito do tempo". Porém, passar daí ao delírio da cabala, como objectivamente passou o ministro, não ofende apenas os que trabalham nesta casa e no "Expresso": mostra que este não compreende os mecanismos da circulação da informação e pensa que pode controlar o pensamento e domar o pluralismo através da mão invisível das dependências ou do tonitroar das ameaças.
Tal não surpreende. Afinal, trata-se de alguém que sempre acompanhou Santana e, como ele, acredita que tudo começa e acaba no espaço do pequeno ecrã, com mais ou menos golpes de mágica. De alguém que não entende que o "mel" do "Pedro" termina no momento em que os números de oratória não têm sequência na acção governativa. De quem, como Santana, se atormenta mais com uma notícia, uma fotografia ou um comentário que lhe é desfavorável do que com as difíceis decisões da boa governação.
O exemplo acabado de tal obsessão veio-nos este fim-de-semana do mais alto nível, quando o primeiro-ministro mandou a sua chefe de gabinete desmentir uma sua inocente e, porventura, merecida sesta depois de um debate parlamentar. Churchill, que não dispensava o invejável hábito da sesta, teria desprezado a insignificância da picardia; Santana, a quem falta o essencial - a substância -, perdeu a cabeça pois acredita que fica melhor no papel do "homem que não dorme", zelando pelo país de olhos bem abertos (mesmo enquanto assiste a um desfile da Moda Lisboa...).
O ridículo mata. Os dislates pagam-se. Os políticos vão e vêm. Mas a obsessão que estes mostram pelo controlo da informação é perigosa. Pior: eles são perigosos.
(E, por hoje, já nem nos referimos ao que também ontem disse Morais Sarmento sobre a independência das estações públicas de radiodifusão...)

FERNANDES, José Manuel,´"Obsessões Perigosas", Público,20 de Outubro de 2004.

Paradoxos

Metade dos brasileiros é pobre ou muito pobre, mas o país de Lula é o segundo mercado mundial de lapiseiras Montblanc e o nono comprador de automóveis Ferrari, e as lojas Armani de São Paulo vendem mais do que as de Nova Iorque.

Pinochet, o verdugo de Allende, prestava homenagem à sua vítima cada vez que falava do “milagre chileno”. Ele nunca o confessou, nem tampouco o disseram os governantes democráticos que chegaram depois, quando o “milagre” se converteu em “modelo”: O que seria do Chile se não fosse chileno o cobre, a trave mestra da economia que Allende nacionalizou e que nunca foi privatizado?


Nasceram na América, não na Índia, os nossos índios. Também o peru e o milho nasceram na América e não na Turquia, mas a língua inglesa chama «Turkey» ao peru e a língua italiana chama «granturco» ao milho.

O Banco Mundial elogia a privatização da saúde pública na Zâmbia: “É um modelo para a África. Já não há filas nos hospitais”. O diário The Zambian Post, completa a ideia: “Já não há filas nos hospitais, porque as pessoas morrem em casa”.

Há quatro anos, o jornalista Richard Swift, chegou aos campos do oeste do Gana, onde se produz cacau barato para a Suiça. Na sua mochila, o jornalista levava tabletes de chocolate. Os cultivadores de cacau nunca tinham provado chocolate. Ficaram encantados.

Os países ricos, que subsidiam a sua agricultura ao ritmo de mil milhões de dólares por dia, proíbem os subsídios à agricultura nos países pobres. Colheita recorde junto ao rio Mississipi: o algodão americano inunda o mercado mundial e derruba o preço. Colheita recorde junto ao rio Níger: o algodão africano vale tão pouco que nem vale a pena recolhê-lo.

As vacas do Norte, ganham o dobro dos camponeses do Sul. Os subsídios que cada vaca recebe na Europa e nos Estados Unidos, são o dobro da quantidade média de dinheiro que ganha, por um ano inteiro de trabalho, cada produtor dos países pobres.

Os produtores do Sul, acedem desunidos ao mercado mundial. Os compradores do Norte impõem preços de monopólio. Desde que, em 1989, morreu a Organização Mundial do Café e acabou o sistema de cotas de produção, o preço do café anda de rastos. Nos últimos tempos, pior do que nunca: na América Central, quem semeia café, colhe fome. Mas não baixou nem um bocadinho, pelo que sei, o que pagamos para o beber.

Carlos Magno, criador da primeira grande biblioteca da Europa, era analfabeto.

Joshua Slocum, o primeiro homem que deu a volta ao mundo navegando sozinho, não sabia nadar.

Há no mundo tantos esfomeados como gordos. Os esfomeados comem lixo nas lixeiras, os gordos comem lixo no McDonald’s.

O progresso faz inchar. Raratonga é a mais próspera das ilhas Cook, no Pacífico Sul, com espectaculares índices de crescimento económico. Mas mais espectacular é o crescimento da obesidade entre os seus homens jovens. Há 40 anos, 11 em cada 100 eram gordos. Agora, todos são gordos.

Desde que a China se abriu a esta coisa a que chamam “economia de mercado”, o menu tradicional de arroz com vegetais, foi ferozmente desalojado pelos hambúrgueres. O governo chinês, não teve outro remédio senão declarar guerra contra a obesidade, convertida em epidemia nacional. A campanha de propaganda difunde o exemplo do jovem Liang Shun, que emagreceu 115 kg no ano passado.

A frase mais famosa atribuída a Dom Quixote (“ Ladram Sancho, é sinal que cavalgamos”) não aparece na novela de Cervantes; e Humphrey Bogart não a diz a frase mais famosa atribuída ao filme Casablanca (“Play it again, Sam”).

Ao contrário do que se crê, Ali Bábá não era o chefe dos 40 ladrões, mas seu inimigo; e Frankenstein não era o monstro mas sim o seu involuntário inventor.

À primeira vista, parece incompreensível, e à segunda vista também: onde o progresso mais progride, mais horas as pessoas trabalham. A doença por excesso de trabalho conduz à morte. Em japonês, diz-se: Karoshi. Agora, os japoneses estão a incorporar outra palavra no dicionário da civilização tecnológica: “Karojsatsu é o nome dado aos suicídios provocados por hiperactividade, cada vez mais frequentes.

Em Maio de 1998, a França reduziu a semana laboral de 39 para 35 horas. Essa lei, não só se revelou eficaz contra a desocupação, como também deu um exemplo de rara sanidade neste mundo que perdeu um parafuso, ou vários, ou todos: para que servem as máquinas, se não reduzem o tempo de trabalho humano? Mas os socialistas perderam as eleições e a França voltou à anormal normalidade do nosso tempo. Já se está a evaporar a lei que havia sido ditada pelo senso comum.

A tecnologia produz sandes quadradas, frangos sem penas e mão-de-obra sem carne e osso. Nuns quantos hospitais dos Estados Unidos os robots cumprem tarefas de enfermagem. Segundo o diário The Washington Post, os robots trabalham 24 horas por dia, mas não podem tomar decisões, porque carecem de senso comum: um involuntário retrato do trabalhador exemplar do mundo futuro.

Segundo os Evangelhos, Cristo nasceu quando Herodes era rei. Como Herodes morreu quatro anos antes da era cristã, Cristo nasceu pelo menos quatro anos antes de Cristo.

Com trovões de guerra se celebra em muitos países, a noite de Natal. Noite de paz, noite de amor: o foguetório enlouquece os cães e deixa surdos os homens e mulheres de boa vontade.

A cruz suástica, que os nazis identificaram com a guerra e com a morte, havia sido um símbolo de vida na Mesopotâmia, na Índia e na América.

Quando George W. Bush propôs cortar os bosques para acabar com os incêndios florestais, não foi compreendido. O presidente parecia um pouco mais incoerente do que de costume. Mas ele, estava a ser consequente com as suas ideias. São os seus santos remédios: para acabar com a dor de cabeça, há que decapitar o doente; para salvar o povo iraquiano, vamos bombardeá-lo até o fazer em puré.

O mundo é um grande paradoxo que gira no universo. Por este andar, daqui a pouco tempo os proprietários do planeta proibirão a fome e a sede, para que não faltem o pão nem a água.

GALEANO, Eduardo, “Paradojas”, www.rebelion.org/cultura/galeano201002.htm.

Sociedade de Consumo...




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